29/07/2016

J. K. Rowling como Robert Galbraith



J. K. Rowling conquistou vários corações (incluindo o meu) com a famosa saga de Harry Potter. Por isso, naturalmente, ficamos sempre curiosos quando ela lança um novo livro, pois temos a perspectiva de que vem escrita de qualidade por aí.

Com o pseudônimo de Robert Galbraith, Rowling inova na área do romance policial com a série protagonizada pelo detetive particular Cormoran Strike. Li o primeiro livro da série "O Chamado do Cuco" e digo a vocês que esperava bem mais. O livro não teve um final que me surpreendeu, a narrativa é meio entediante em algumas partes, as personagens não me conquistaram, além de ter achado a relação de personagens confusa.

Eu sou fã de narrativas policiais e de suspense, e penso que o grande diferencial desses gêneros é a surpresa que o leitor tem ao final, com o desfecho do enredo. No entanto, na metade para o final do livro "O Chamado do Cuco" já sabia quem havia cometido o assassinato. Foi simples e sem grandes surpresas.

Por isso, fiquei decepcionada. Creio que quem é acostumado à leitura de Agatha Christie também o ficará.

Beijos! ;*

16/02/2016

"O Sorriso da Hiena", de Gustavo Ávila

Alguém aqui já viu o sorriso de alguma hiena?

Prazer... sorriso da hiena! =)
No reino animal, é muito conhecido e peculiar o sorriso da hienas. Segundo um estudo realizado por cientistas da Universidade da Califórnia (EUA), o principal motivo do ruído emitido pelo animal é de frustração. Ainda segundo a pesquisa, o riso desse animal varia de acordo com a posição que ele pertence no grupo, de tal forma que, quanto mais inferior a sua hierarquia, maior o seu riso.

Pois bem, esse peculiar (e, convenhamos, engraçado) sorriso foi a inspiração para o título do livro de um dos mais novos e brilhantes escritores brasileiros, o Gustavo Ávila. E, ao lermos o livro, percebemos que tem tudo a ver com o enredo.

O Sorriso da Hiena
304 páginas
Gente, e que livro f***!!!! Pelo amor de Deus, o que foi isso?? Sem brincadeira alguma, esse foi um dos melhores romances policiais que eu já li na vida, sendo até melhor que alguns policiais do Stephen King (aliás, "Joyland" não é lá essas coisas que andam dizendo por aí...).

Mas, deixando a euforia de lado, vamos nos ater ao enredo em si. Segundo a sinopse:

Deus não escreve a sua história. Só risca as linhas. Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitável psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana. Porém, a proposta feita pelo misterioro David coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é uma pessoa má por ter presenciado o brutal assassinato dos seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a dele, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência esse trauma na vida delas. Até onde ele será capaz de ir? É possível justificar um ato de crueldade quando, por trás dele, há a intenção de fazer o bem? 

Diferente de outros livros nos quais tenho comentado ultimamente, eu quis colocar a sinopse como ponto de partida do nosso bate papo, porque eu acho que a sinopse e o início do livro nos falam muito sobre o que será e como será o enredo. Na minha opinião, o livro possui um "trio parada dura", formado por um protagonista, o David, por um antagonista, o Artur, e por uma personagem secundária, o William.

O David, como a própria sinopse e o prólogo do livro irá nos narrar, é um cara que aos oito anos presenciou a morte brutal de seus pais. Esse é um trauma que o seguirá por toda a sua vida e, quando adulto, ele resolve fazer o mesmo com outras crianças, de diferentes classes sociais e com diferentes histórias de vida, como uma espécie de teste para descobrir até que ponto esse trauma irá influenciar as suas vidas. Por outro lado, o William é um psicólogo que trabalha com crianças e é escolhido pelo David para acompanhar e fazer um estudo dos casos, com um detalhe: o William nunca tem contato com o David, nem sabe quem ele é pessoalmente.

No meio dessa confusão de vários assassinatos acontecendo, a polícia começa a investigar e ligar os casos, tentando chegar ao autor dos crimes. Um dos melhores detetives da polícia, o Artur, é chamado para investigar as ocorrências. Artur é uma pessoa que tem dificuldade de se relacionar com outras pessoas, por isso não é bem quisto pela corporação, porém, é considerado uma das mentes mais brilhantes para solucionar casos.

A história é brilhante, nos dando a impressão que cada detalhe, desde o modo de vida até uma passagem bíblica, é super importante para o desenrolar do enredo.

O narrador é uma terceira pessoa (aquele "famoso", que tudo sabe e que tudo vê), o que facilita o desenvolvimento da história e o conhecimento, por parte do leitor, dos fatos que ocorrem no decorrer da narrativa.

A narrativa do livro é tão empolgante, que a gente não quer parar de ler. E, quando mais o livro vai acabando, mais a gente vai se prendendo à história. E, gente... o final é surpreendente! Eu acho que esse é um livro de leitura fácil e rápida, então, se você puder, leia agora. Vale muito à pena!

Um dica... Sabe aqueles crimes perfeitos? Pois bem, é o caso.

Uma querida amiga, a Claudinha, me atentou ao fato do final do livro ter uma certa semelhança com o final do filme argentino "O Segredo dos Seus Olhos", dirigido por Juan Jose Campanella. O filme está disponível na Netflix, então, fui assistir. E não é que tem certa semelhança o final mesmo? Aliás, esse filme é igualmente incrível, apesar do enredo ser bem diverso do caso desse livros. Fica a dica!

O livro pode ser encontrado no link a seguir, caso você tenha interesse: http://osorrisodahiena.com.br/. Creio que o livro não esteja mais disponível para a venda, mas o e-book está e é tão baratinho, que vale muito comprar!

Um beijo e até mais! ;*

31/01/2016

"Palavras de Poder - Entrevista com Monja Coen", de Lauro Henrique Jr

Editora Leya
Nota: 5/5

Olá, pessoas queridas! Tudo bem com vocês?

Então, hoje iremos conversar um pouco sobre um livrinho delicioso que li em um pouco menos de uma hora, denominado "Palavras de Poder - Entrevista com Monja Coen". Na realidade, Lauro Henrique Jr lançou dois livros, um foi o "Palavras de Poder: Volume Brasil" e "Palavras de Poder: Volume Mundo", onde ele transcreve várias entrevistas feitas com personalidades da espiritualidade e do autoconhecimento do mundo. Essa entrevista que irei comentar rapidamente faz parte do Volume Brasil e nós podemos encontrar separadamente na Amazon ou o volume completo. Aliás, no site da Amazon, todos esses livros fazem parte do Kindle Unlimited, aquele programa de aluguéis de livros.

A Monja Coen é uma fonte de inspiração para a minha vida. Antes de conhecê-la eu já estudava - ou melhor, tentava - estudar o budismo, no entanto, achava uma religião cheia de dogmas e, até certo ponto, difícil de compreender. Daí eu conheci a Monja e seus programas na Rádio Mundial. E, como consequência, conheci o Zen Budismo e a minha visão dessa religião ficou mais simplificada.

Um das principais lições que tenho aprendido com a Monja é que podemos continuar acreditando em Deus e seguindo os ensinamentos de Buda. Isso era algo que eu tinha muita dificuldade de compreender, principalmente com o ensinamento de outras correntes budistas, mas daí percebi que dá para conciliar essas duas crenças e, acima de tudo, que é importante e que a vida faz mais sentido se conciliarmos. Quero em outros momentos falar sobre outros ensinamentos que estou tendo com o Zen Budismo, mas de antemão queria frisar esse, devido ao momento de intolerância religiosa em que vivemos.

Pois bem, a entrevista é curta, mas muito esclarecedora. Se você não conhece a Monja Coen ou o Zen Budismo, vale a pena a leitura. O nome da Monja é Claudia Dias Batista de Souza e ela foi ordenada monja em 1983. Antes ela era jornalista e participou de várias atividades de contracultura no país. Ela fundou a comunidade Zen Budista no Brasil em 2001. Co significa "só" e En significa "completa", então, podemos dizer que ela é uma monja "só e completa".

Na entrevista, ela irá falar de alguns conceitos introdutórios do budismo, como o caminho do meio e o que significa ser uma pessoa virtuosa, como lidamos com o sofrimento, bem como a presença absoluta.

"Temos que nos tornar uma ponte que auxilia os outros em sua travessia do mar de sofrimento para o espaço de comunhão e compreensão superior".
"Aprecie o caminho".
Acho que falar mais seria estragar a delícia que é esse livro. Fica aqui a dica de um livro carregado de espiritualidade e rápido de ser lido, perfeito principalmente para aqueles momentos de descanso.

Para acessar o site da Monja Coen é só clicar aqui.

Um beijo e até mais! ;*

26/01/2016

"A Sangue Frio", de Truman Capote

Editora Companhia das Letras
Tradução: Sergio Flaksman
Nota: 4/5

Sinopse do livro aqui.

Olá pessoas queridas! Tudo bem com vocês? Então, vamos conversar um pouco sobre um dos grandes livros do Truman Capote, "A Sangue Frio". Esse livro está em dois desafios que estou participando, o "30 Livros para Ler Antes dos 30" e "12 Livros para 2016".

Eu fiquei muito interessada na história depois de ver um comentário em um vídeo da Tatiana Feltrin e, principalmente, após ver o filme "Capote", no qual o incrível Philip Seymour Hoffman fez o papel do Truman Capote e ganhou, dentre outros prêmios pelo papel, o Oscar de melhor ator.

Inicialmente, importante destacar que o livro faz parte de uma espécie de gênero literário chamado "Jornalismo Literário", no qual, apesar de não ser o primeiro a escrever esse gênero, Truman Capote é o seu maior expoente. Para compreender melhor o jornalismo literário, essa matéria aqui é bem interessante. Então, vamos dizer que a estrutura é um pouco diferente dos livros de ficção que estamos acostumados a ler, se assemelhando muito com os gêneros de não ficção (sim, que é o que realmente esse livro é).

Pois bem, Truman Capote, já um escritor conhecido e influente, em novembro de 1959, toma conhecimento, através de uma notícia de jornal, do assassinato brutal de uma família de quatro pessoas, na pequena cidade de Holcomb, no Kansas, Estados Unidos. A partir dessa notícia, ele vai à cidade tomar conhecimento dos fatos e começa a colher materiais que resultaram nesse brilhante livro.

A família assassinada são os Clutter, uma família muito prospera e também muito querida na cidade. Aliás, a cidade Holcomb me pareceu uma cidade pequena, onde todos se conhecem (ao menos de vista) e também muito tranquila e muito familiar. O que tornou o crime mais bárbaro ainda. A cidade era tão tranquila que, no primeiro capítulo da narração, o escritor vai nos informar que os Clutter dormiam com as portas abertas, tal era a segurança e tranquilidade da localidade.

Família Clutter assassinada
No primeiro capítulo, já ficamos sabendo quem são os assassinos (Perry e Dick) e a descrição do dia antes da morte da família (14 de novembro de 1959), tanto uma descrição detalhada do que a família fez e com quem estiveram, como um relato da preparação dos assassinos para o crime. Os outros capítulos são dedicados à descoberta da família morta, o impacto que tal notícia teve na cidade, as investigações, a descoberta dos assassinos, bem como o seu julgamento e a morte dos mesmos.

Quando da publicação da história (inicialmente em um jornal e, após, condensada em um livro), ocorreram muitas polêmicas em torno da mesma. Primeiramente, pelos personagens alegarem não terem dito aquilo que necessariamente estava escrito. Capote usava uma técnica na qual ele não precisava utilizar o gravador quando ia conversar com uma pessoa, mas apenas memorizava aquilo que a pessoa falava. Ele alegava que o gravador acabava intimidando a pessoa e não fazendo com que ela expressasse tudo aquilo que ela gostaria. Porém, o perigo dessa técnica é que o escritor não descreve em sua narrativa aquilo exatamente que o personagem falou, mas a intenção de sua fala, aquilo que ele gostaria de transmitir e, isso, gerou um certo desconforto entre as pessoas que de certa foram participaram do livro como personagens. Essa é uma grande característica do Jornalismo Literário. Outro ponto de forte polêmica foi o fato de algumas pessoas falarem que Truman Capote se envolveu de forma demasiada com um dos assassinos, Perry Smith. Na verdade, podemos perceber isso claramente na própria narrativa, onde o escritor humaniza demais o próprio Perry. Dizem as boas e más línguas que Truman Capote, apesar de ser convidado, não teve condições de assistir à morte de Perry Smith, mas apenas a de Dick.

Os assassinos: Dick e Perry
De forma geral, o livro é excelente! E o mais impressionante é que a história de fato ocorreu. Não sei vocês, mas todas as vezes que eu leio uma história de não-ficção eu fico impressionada por aquilo ter ocorrido na vida real. No entanto, achei meio tediosa umas partes do livro, motivo pelo qual esse não é um dos meus favoritos da vida. Acho que até vale uma releitura, mais para a frente desse livro, porque ele merece uma segunda chance, pois boa parte da minha "decepção" se deve ao fato de ter criado muita expectativa sobre o mesmo.

Para complementar a leitura, vale muito muito a pena assistir ao filme "Capote", porque teremos uma noção de como foram os bastidores da narração dessa história, desde o momento da descoberta de Capote da história, numa página de jornal, até a publicação do livro. Esse filme é baseado numa biografia de Capote e lá temos a presença da querida Harper Lee. <3

Um beijo e até mais! ;*

12/01/2016

Sobre o medo de ler clássicos


Sim, eu confesso que tenho (ou tinha, ainda não sei muito bem) um grande medo de ler clássicos da literatura.

Não só pela leitura em si, mas principalmente pela pós leitura. Os clássicos têm um grande peso na nossa lista de leituras e parece que dão uma "grande responsabilidade" ao leitor. E esse peso aumenta quando você lê um calhamaço de mais de mil páginas... 

Enfim, ano passado abandonei a leitura de dois livros considerados clássicos, por medo. O primeiro foi "Os Miseráveis", do Victor Hugo, e o segundo foi "Grande Sertão: Veredas", do Guimarães Rosa. Simplesmente travei. Criei tanta expectativa que travei. Fiquei com medo, coloquei um peso imenso num livro e não consegui passar das primeiras cento e cinquenta páginas de cada um. Depois me senti frustada e passei a refletir sobre isso.

A verdade é que criamos tanta expectativa num livro por seu um clássico, muitas vezes sem sentido. Os livros são clássicos são importante para a literatura mundial, não temos dúvidas disso, mas são apenas livros e não monstros de "sete cabeças". Dessa forma, a gente acaba perdendo tanta oportunidade de ler bons livros nessa vida porque simplesmente nos disseram que era um livro "muito difícil" ou porque ele tem mais de mil páginas.

Acho que eu criei esse post mais como um desabafo. Porque já cansei de me pôr limitações de leitura e cansei de ouvir outras pessoas ficarem surpresas com a minha lista de livros por ler ou com o livro que eu estou lendo, como se eu não tivesse capacidade de ler tal livro. O que não é verdade, pois todos nós temos.

Esse ano irei me dedicar principalmente à leitura dos grandes clássicos da literatura brasileira e mundial. Quem ainda não viu minha lista, pode clicar aqui. Dessa forma, não espero ler muitos livros, mas apenas bons livros. E sim, irei passar pelo desafio de ler "Ulisses", de Jaimes Joyce. Porque, sim, ele é apenas um livro e eu tenho condições de lê-lo (todo mundo tem). \o/ Também já iniciei a leitura de "Guerra e Paz", de Liev Tolstoi, e retomei a leitura de "Os Miseráveis", de Victor Hugo. Esses dois espero acabar por volta de abril deste ano.

Acho que é sempre bom colocar um freio em nossos medos e encarar a leitura de grandes clássicos. É o que eu estou tentando fazer e, até o momento, estou me saindo bem. A vida é muito curta para lermos livros ruins. ;)

Beijos e até mais! ;*

10/01/2016

Lendo Os Miseráveis #1




Olá pessoas, tudo bem com vocês? :)

Hoje iremos conversar um pouco sobre o livro "Os Miseráveis", do Victor Hugo. Estou participando da leitura coletiva promovida pelo canal Livro & Café e Subindo no Telhado e se você quiser se juntar conosco nessa missão, poderá ter mais informações clicando aqui.

Nessa primeira semana li até a página 158 (Tomo I Fantine, livros 1º e 2º), seguindo o cronograma de leitura sugerido pelos blogs acima. A ideia é ler cerca de 150 páginas por semana.

"Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscrição social,
forçando a existência, em plena civilização, de verdadeiros infernos,
e desvirtuando, por humana fatalidade, um destino por natureza
divino; enquanto os três problemas do século - a degradação do
homem pelo proletariado, a prostituição da mulher pela fome,
e a atrofia da criança pela ignorância - não forem resolvidos;
enquanto houver lugares onde seja possível a asfixia social; em
outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto
sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não
serão inúteis".
(Victor Hugo - 1862)

Inicialmente, antes de conversar sobre o que achei da leitura dessa primeira semana, queria contextualizar um pouco o cenário da França no final do século XVIII e início do século XIX, onde a história se passa, relembrar as nossas aulas de História. 

A França, até o século XVIII, vivia sob um regime de monarquia absolutista e a sociedade estava divida em estamentos ou estados. O primeiro estamento pertencia ao clero, o segundo estamento pertencia à nobreza e o terceiro, ao resto da população. Os direitos eram vistos de acordo com o estamento no qual a pessoa estava incluída e, claro, ao primeiro e ao segundo eram conferidos vários privilégios em detrimento do terceiro. Ainda sim, os dois primeiros estamentos não possuíam nenhum dever de manter os tesouros da Nação, ou seja, os impostos recaíam apenas ao restante da população. E esta vivia na mais completa miséria. E apesar disso, a desigualdade era vista como a ordem natural das coisas, a vontade de Deus.

A Revolução Francesa (1789-1799) foi uma série de acontecimentos que visavam acabar com as regalias do clero e da nobreza e instituir um regime onde todos fossem iguais perante a lei. No entanto, apesar de trazer a igualdade formal, as pessoas mais humildes nos pós-revolução continuaram privadas dos seus direitos mais básicos, como alimentação e moradia. Hannah Arendt, em seu livro "Sobre a Revolução" retrata com muita propriedade o legado da Revolução Francesa para o mundo e, principalmente, para a França. Abaixo, transcrevo alguns trechos de seu livro para que possamos entender a situação da França pós revolução:

"A história constitucional da França, onde mesmo durante a revolução seguiu-se uma Constituição após a outra, enquanto os homens que estavam no poder não conseguiam colocar em vigor nenhuma das leis e decretos revolucionários, pode ser facilmente lida como um registro monótono ilustrando reiteradamente o que devia ter sido óbvio desde o início, a saber, que a chamada vontade de uma multidão (se for mais do que uma ficção jurídica) é por definição sempre variável, e que uma estrutura fundada sobre ela está fundada sobre areia movediça. O que salvou o Estado nacional da ruína e queda imediata foi a facilidade extraordinária com que se podia manipular e impor a vontade nacional sempre que alguém se dispusesse a tomar a si o fardo ou a glória da ditadura" (p. 215)
"Mas tal transformação não foi possível nos países afetados pela Revolução Francesa. Nessa escola, os revolucionários aprenderam que os antigos princípios inspiradores tinham sido invalidados pelas forças nuas e cruas da escassez e da necessidade, e concluíram o aprendizado plenamente convictos de que foi a própria revolução que revelou o que de fato seriam esses princípios - um monte de asneiras. Denunciar essas 'asneiras' como preconceitos pequeno-burgueses lhes era muito mais fácil porque a sociedade havia realmente monopolizado esses princípios, desvirtuando-os e convertendo-os em 'valores' (...). também teria de admitir que nenhuma revolução, nenhuma fundação de um novo corpo político, seria possível onde as massas eram oprimidas pela miséria." (p. 281-282)
Aqui não quero desmerecer a Revolução Francesa, que sem dúvida alguma, foi um marco para o ocidente e, principalmente, para a própria Franca. Porém, é certo que uma monarquia absolutista foi derrotada e, em seu lugar, implantada uma "ditadura Napoleônica". Ou seja, só ouve uma mudança na classe dominante, antes o clero e a nobreza, agora a alta burguesia. Enquanto isso, a miséria continuava...

Os Miseráveis, de Victor Hugo
Ed. Cosac Naify
Os Miseráveis se inicia em 1815, após a Batalha de Waterloo. Em alguns trechos, ainda são narrados acontecimentos do Governo dos Cem Dias de Napoleão, quando ele fugiu da Ilha de Elba, em março de 1815, e voltou para a França.

A história é narrada em terceira pessoa, por um narrador onisciente, que tudo sabe e que tudo vê, mas que nem tudo conta para a gente. Sim, a impressão que tive é que o narrador brinca com o leitor em alguns momentos. Ele não é todo isento de opinião e nos induz a pensamentos. Ele afirma que não sabe o que se passa no íntimo de seus personagens, mas ele sabe, só não nos conta... Na minha opinião, aliás, ele é, junto com a miséria, um dos personagens principais da trama.

Logo no início, somos envolvidos pela personalidade do Bispo de Digne, Charles Myriel (D. Bienvenu). O primeiro livro, aliás, é todo dedicado a ele. O narrador não poupa páginas para descrever Charles Myriel e suas ações, sua bondade, suas dúvidas e, sim, sua opinião política. O que nos faz indagar: por que Victor Hugo gastou tantas páginas com um personagem secundário como o bispo? Na minha opinião, existem alguns motivos para tal façanha: 1) para que possamos entender melhor esse personagem e, assim, compreender melhor o motivo de sua ação com Jean Valjean; 2) porque, por mais que ele apareça explicitamente no primeiro e início do segundo livro, desse primeiro tomo, ele estará implicitamente no decorrer de toda história; e 3) como uma forma de criticar o clero.

Charles Myriel é um personagem encantador, sem dúvida. Ele foi nomeado bispo de Digne por ter agradado o imperador Napoleão com apenas uma frase. Sabemos pouca coisa da sua vida antes do clero, apenas que sua família fazia parte da aristocracia parlamentar, que foi casado e que, durante a Revolução Francesa se refugiou na Itália, onde ali sua esposa veio a falecer. Quando retornou para a Franca, sabe-se que já era padre. Em Digne, vivia uma vida simples com sua irmã, a Srta. Baptistine e a criada, Mme. Maglorie.

Sua opinião política é apresentada com muita sutileza pelo narrador, principalmente no diálogo travado com o Sr. G., um homem que foi membro da Convenção Nacional, que governou a França de 1792 a 1795. Sendo condenado pela sociedade, o homem vivia recluso e já estava prestes a morrer quando recebe a visita do bispo. O diálogo travado entre os dois é muito interessante e extremamente polêmico. Depois de lermos essa conversa podemos facilmente imaginar que o bispo fosse contra a Revolução Francesa e contra Napoleão, no entanto, difícil não ser quando toda uma população continuou na mesma miséria de antes e quando as leis continuaram a só prejudicar os mais pobres...

No Livro Dois conhecemos Jean Valjean e a sua história até a saída das Gales. Ele é basicamente o produto da própria sociedade que o despreza e o ignora. Presenciamos, no início desse segundo livro, uma crítica intensa ao sistema penitenciário, que também vale para os dias atuais. Primeiro, pela condenação de Valjean ter sido desproporcional ao crime cometido. Segundo, pela mudança do personagem, a forma como ele entra e a forma que ele sai das Gales, completamente diferente, um outro homem, que só alimenta o ódio dentro si. E, por fim, ao fato de não haver ressocialização daquele ex-presidiário com a sociedade, ao contrário, ele só se sente recriminado e excluído por essa sociedade.

No entanto, o encontro com o bispo irá transformar a vida de Jean Valjean. <3 E vai ser lindo, tenho certeza.

De uma forma geral, achei lenta e arrastada a leitura do primeiro livro, porém, a leitura do segundo livro, quando o Jean Valjean aparece, achei mais fluída. Estou ansiosa pelas próximas páginas!!

Abaixo, compartilho com vocês o Diário de Leitura de outros blogs, que também estão no projeto:


Um pouco mais sobre o processo de criação de Victor Hugo você também encontra aqui.

Um beijo e até mais! ;*

09/01/2016

Lendo Tolstoi #1: Guerra e Paz

Olá lindezas!

Como informei na primeira postagem desse ano, estou participando do projeto organizado pela Tatiana Feltrin de leituras dos livros de Liev Tolstoi. Ela denominou de "Lendo Guerra e Paz", mas como o projeto não se acabará com a leitura desse livro, preferi denominar de "Lendo Tolstoi".



Infelizmente, eu não tive muito tempo de escrever no blog uma introdução do projeto, como seria o ideal, mas vamos lá... :) A ideia é que leiamos 150 páginas do livro por semana, de tal forma que na primeira semana a leitura seria até a página 157 do livro da Cosac Naify (Capítulo XVII, da Primeira Parte do Tomo 1). Na versão da Cosac, o livro é dividido em 4 Tomos e possui 2.528 páginas (já já eu explico o porquê da menção "na versão da Cosac").

Bom, inicialmente quero informar que estou uma semana atrasada no projeto e quero explicar o que aconteceu. Eu comprei o livro "Guerra e Paz", da editora Cosac Naify pela Amazon, no entanto, na época não estava disponível e o livro demorou para chegar na minha casa. Dessa forma, eu adquiri o e-book também pela Amazon para não me atrasar na leitura e confesso que foi uma das piores coisas que eu fiz.

O e-book que eu adquiri é da Editora Centaur e a tradução foi feita por Garibaldi Falcão. Eu li no e-book até o capítulo XVII, seguindo o cronograma do projeto, no entanto, quando fui olhar no livro, a diferença entre os capítulos e entre o próprio livro era imensa! Para vocês terem uma ideia, a parte que acaba no capítulo XVII do livro da Cosac vai acabar no capítulo XXI do livro da Centaur. E as diferenças não acabam por aí... O livro da Centaur contém apenas 03 tomos e eu não sei, realmente, o que fizeram com o último tomo. Porém, ao observamos a quantidade de partes, verificamos que na Centaur possui 17 e um Epílogo, enquanto a Cosac possui 15 partes e 2 Epílogos.

Fora essa questão "estrutural", que me fez ficar perdida, há também diferenças gritantes quanto a tradução das duas edições. Desde já eu informo que eu não sou especialista em traduções, principalmente em se tratando de russo, então a minha opinião aqui é expressa apenas como leitora.

O "Guerra e Paz" da Editora Centaur foi traduzido por um português chamado José Garibaldi Viegas Falcão, já falecido em 1944. Pesquisando no Google, vi comentários de que ele é famoso por traduzir grandes obras, como Victor Hugo e Tolstoi. Ele traduziu o texto para o português de Portugal e, ao que me parece, essa tradução não é direta do russo, mas sim do francês (mas, aqui, é só uma impressão que tive, gente, se alguém tiver alguma informação em contrário, favor, colocar aqui). Ainda sim, ele traduziu os nomes das personagens da obra (o que eu não acho legal...) e traduziu as expressões em francês.

Por outro lado, o "Guerra e Paz" da Editora Cosac Naify foi traduzido por Rubens Figueiredo, diretamente do russo. Ele já havia traduzido "Anna Kariênina" e, devido ao "sucesso" daquela tradução, foi convidado para traduzir essa obra também. Abaixo, o Rubens fala um pouco sobre a sua experiência em traduzir esse livro:



Como eu disse, eu não sou especialista em traduções, principalmente quando se trata de traduzir uma obra russa. Mas, falando enquanto leitora, é latente a diferença entre as duas obras e, principalmente, o quanto a edição da Cosac Naify se sobressaí em relação a outra editora. Desta feita, tive que voltar a leitura desde o início da edição da Cosac, motivo pelo qual me atrasei um pouco.

Então, depois dessa "introdução", vamos ao que interessa... :)

# "Guerra e Paz": Até a página 157 (Capítulo XVII, da Primeira Parte do Tomo 1 - Cosac Naify)



Logo nos primeiros capítulos, percebemos que "Guerra e Paz" não é um livro com um ou dois personagens principais, mais vários. Aliás, até ousaria dizer que a personagem principal do enredo é a Rússia do início do século XX. Como nos informa Rubens Figueiredo na apresentação do livro "os personagens são encarados não só no plano pessoal e familiar, mas também em função da maneira como viam Napoleão e a posição da Rússia no mundo".

A história se inicia em julho de 1805 (antes da famosa batalha de Austerlitz) e nos mostra uma sociedade altamente dividida entre os russos e os franceses. Napoleão já possuía um certo domínio sobre a Rússia e a influência do francês já era tanta sobre os russos, que se misturava na própria linguagem. Aliás, o livro apresenta a tradução do russo, no entanto, as parte em francês são mantidas pelo tradutor, porém, como o Rubens Figueiredo é muito bacanudo, ele traduziu as partes em francês nas notas de rodapé e a vida fica muito mais fácil pra gente. <3 Na tradução do Garibaldi Falcão, ele traduziu tanto o russo quanto o francês.

Inicialmente, presenciamos uma reunião em Petersburgo, na casa de Anna Pávlovna Scherer, uma dama de honra, solteira e favorita da imperatriz Maria Fiódorovna. Para essa reunião, ela convida pessoas da alta sociedade petersburguesa e já percebemos a posição de alguns personagens sobre Napoleão. Aliás, achei super engraçada a parte em que a Anna Pávlovna fica meio que de olho no Pierre, com medo de que ele falasse alguma inconveniência ou fizesse alguma besteira.

Na verdade, o personagem que mais me encantou e que eu achei bem engraçado é o Pierre. Ele é descrito como um jovem gordo, meio desajeitado, filho bastardo (e preferido) do conde Bezúkhov, mas que apronta tudo o que ele pode, e o que é mais engraçado nele é esse jeito meio desajeitado, de não saber se comportar em certas situações formais, principalmente diante da alta sociedade.

Outra personagem que me encantou foi a princesa Anna Mikháilovna Drubetskaia, por sua força em ir atrás de tudo o que ela quer.

Nessas 150 primeiras páginas também conhecemos o núcleo de Moscou, na festa na casa dos Rostóv. Tanto a matriarca dessa família quanto sua filha caçula, as duas chamadas Natália, fazem aniversário nesse dia. Na verdade, o tradutor explicou esse ponto numa nota de rodapé informando o seguinte: "Os russos recebiam o nome de um santo, e o dia desse santo, no calendário da Igreja Ortodoxa, era comemorado como o aniversário da pessoa. Chama-se santo onomástico".

Essa primeira parte foi basicamente para nos familiarizarmos com as personagens e famílias, tanto no núcleo de Petersburgo, quanto de Moscou. Enfim, percebemos que esse livro não retrata apenas os homens que vão para a guerra, mas tem a presença também de mulheres fortes. O livro é muito gostoso de se ler, mas acho que sou um pouco suspeita para falar nisso, porque sempre gostei da literatura russa justamente por sua linguagem.

Um beijo e até mais! ;*

04/01/2016

Para 2016

Feliz 2016, pessoas!

Cá estou eu (provavelmente, um pouco atrasada) para fazer uma avaliação das minhas leituras em 2015 e falar sobre o que eu estou planejando para 2016.

Em 2015 li quase a mesma quantidade de livros que li em 2014, por mais que a minha intenção não fosse ler tanto assim. Por outro lado, creio que os livros que li foram de maior "qualidade", ainda que tal critério seja estritamente subjetivo. Eu li de tudo: desde romance histórico, como a série que li da Lisa Kleypas, até terror, como o clássico "O Exorcista". Além disso, passei a incrementar as HQ's e mangás às minhas leituras, o que tem sido bem divertido.

2015 também foi o ano em que eu tive a minha primeira ressaca literária, o que me fez parar de ler por mais de um mês. Foi f***, mas também aprendi a controlar mais o meu ritmo.

Bom, não sei se tem O melhor livro que li em 2015, pois li grandes e excelentes livros. Mas, com certeza, a quadrilogia "Divergente" foi uma grande decepção e está no rol dos piores livros que li na vida. E, sinceramente, o último livro intitulado "Quatro" é totalmente dispensável. Portanto, car@ leitor@, não sei deixe enganar por essas propagandas de editoras que vendem o livro na base de ilusões.

Agora, listar os livros bons-excelentes-maravilhosos que li é uma tarefa difícil, de tal modo, que terei que listá-los por ordem cronológica de leitura, uma vez que não existe um melhor dentre eles:



Uma coisa boa é que li livros de escritores da nova geração nacional e fiquei feliz por estarem escrevendo bons livros. Aliás, a qualidade é tanta que fiquei impressionada. Não que os escritores brasileiros não escrevam coisas boas, ao contrário, a produção nacional é belíssima. Mas, por serem "primeiros livros", é impressionante a qualidade e maturidade na escrita desses três. Por isso, eles são mais que indicados aqui no meu blog e sempre serão bem vindos. O primeiro que li foi "Em Janeiro", do Caio Bersot (esse já tem opinião no blog, é só clicar aqui). Os outros dois são: "Ovelha: Memórias de um Pastor Gay", do Gustavo Magnani (portal Literatortura) e "Sorriso da Hiena", do Gustavo Ávila. Em breve, escrevei sobre os dois últimos aqui no blog.

Para fechar um pouco dessa análise de 2015, é com muita tristeza que falo que alguns livros deixei pelo meio do caminho. Sabe aqueles momentos em que você lê um livro mas percebe que ele não apareceu em nossa vida no momento certo? Pois bem, acho que foi isso que aconteceu com esses livros. Para não aumentar a minha vergonha, não quero listá-los por cá, mas apenas falar de dois, cuja leitura retomarei em 2016, quais sejam: "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, e "Anna Kariênina", de Liev Tolstoi. São clássicos da literatura brasileira e russa e que, com certeza, serão retomados esse ano, espero que ainda no primeiro semestre.

E o que nos aguarda em 2016?

Um futuro de muitos clássicos pela frente. Lembrando aquele ditado "A vida é muito curta para ler livros ruins"... Pois bem, esse ano será o ano dos calhamaços, people! E, com isso, provavelmente a minha lista de livros será bem menor do que nos anos anteriores, o que não faz mal, pois o que importa é a qualidade e não a quantidade. ;)

Olha só, para início de conversa, informo a vocês que me meti em duas "grandes enrascadas". Primeiro, entrei no projeto da Tatiana Feltrin de leitura dos livros do Liev Tolstoi, a começar pelo imenso "Guerra e Paz". Se você quer saber mais sobre o projeto, o link está bem aqui. Eu pretendo ir conversando com vocês sobre esse livro aqui no blog semanalmente e a hashtag que irei usar para o projeto é #LendoTolstoi. No entanto, não satisfeita, eu também resolvi participar do Projeto de Leitura Coletiva #LendoOsMiseraveis, promovido pelos blogs Livro&Café e Subindo o Telhado, onde provavelmente leremos esse clássico do Victor Hugo até início de abril. Sobre este projeto, também pretendo fazer postagens semanais aqui no blog. Vamos na fé!!

Ainda sim, eu meio que escolhi 12 livros que, com toda certeza, lerei esse ano, sendo cada livro correspondente a um mês. O livro do mês de janeiro já comecei (in love com Capote! <3). Os livros escolhidos são os seguintes:

#12 Livros para 2016:

- Janeiro: A Sangue Frio, de Truman Capote
- Fevereiro: Ilíada, de Homero
- Março: Tirante O Branco, de Joanot Martorell
- Abril: As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley
- Maio: Ulisses, de James Joyce
- Junho: Doutor Fausto, de Thomas Mann
- Julho: Odisseia, de Homero
- Agosto: E O Vento Levou, de Margaret Mitchell
- Setembro: Os Irmãos Karamazov, de Fíodor Dostoiévski
- Outubro: O Cemitério, de Stephen King
- Novembro: Eneida, de Virgílio
- Dezembro: O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

Será que conseguirei sobreviver? Hahaha! 

A ideia de ler grandes (literalmente) clássicos e poucos livros é porque esse ano terei que me dedicar mais aos estudos, portanto, lerei bem menos. Também sei que devo aqui muitas opiniões sobre livros e espero colocar tudo isso em dia... algumas ideias fervilham na minha mente, mas preciso de tempo para colocá-las em prática.

Obrigada pela sua companhia e paciência em 2015! Um 2016 cheio de excelentes leituras!

Um beijo e até mais! ;*

20/12/2015

"O Rei do Inverno - As Crônicas de Artur vol. 01", de Bernard Conrwell


Terminei ontem de ler "O Rei do Inverno", o primeiro livro da trilogia das Crônicas do Rei Artur, escrita por Bernard Cornwell. Quando terminar de ler os três livros, farei uma análise dos mesmos aqui no blog, mas antes vou tecer três comentários a respeito d'O Rei do Inverno:

1) Impressionante a semelhança desse primeiro livro da trilogia com As Crônicas de Gelo e Fogo, de George Martin. O que dá para perceber que, de certa forma, Martin bebeu um pouco na fonte do Bernard Cornwell, ou não, pois os primeiros livros das duas Crônicas são contemporâneos: "O Rei do Inverno" foi publicado em 1995 e "Guerra dos Tronos", em 1996. De qualquer forma, todas as duas crônicas são excelentes e, de certa forma, semelhantes entre si! 

2) O livro é contado a partir da perspectiva de Derfel (leia-se: Dervel), que foi um soldado de Artur. Portanto, toda a história é contada sob o ponto de vista desse narrador e, como nem sempre ele está ao lado de Artur, este nem sempre está em evidência no enredo. Aliás, para a ansiedade do leitor, o Artur demora um pouco para aparecer realmente na história, o que aguça ainda mais a nossa curiosidade. Então, para mim, houveram pontos em que a história ficou meio tediosa, porque eu queria muito saber onde Artur estava, o que ele estava fazendo, etc, e nem sempre tínhamos essa informação. Por outro lado, eu não acho que a escolha do narrador tenha sido errada, muito pelo contrário. 

3) E é aqui é que chegamos no terceiro ponto. É evidente nessa história um quanto um narrador é importante para construir ou desconstruir a imagem de uma personagem no livro. Verificamos isso no caso de Artur e Lancelot. Como Artur é muito querido pelo narrador, temos uma imagem muito positiva dele  (mesmo quando ele faz uma grande burrada no meio da história). Já Lancelot... 

Em breve, espero começar o segundo livro da trilogia, "O Inimigo de Deus".

P.S.: O personagem que mais adorei foi Merlin! Gente, ele é sensacional! 

Um beijo e até mais!  ;*

10/12/2015

Sobre a minha "ressaca literária"


Pois bem, acontece. 

Qualquer um(a) que seja apaixonado(a) por leitura corre o risco de ter essa "crise". E ela aparece quando a gente menos espera.

Alguns dizem que ela é causada após um ritmo intenso de leitura. Outros, dizem que ela pode acontecer após a leitura de um livro muito difícil... Enfim, creio que as causas são as mais diversas possíveis.

Comigo, creio que foi uma mistura das duas coisas. Porque, de fato, meu ritmo de leitura esse ano tem sido superior ao do ano passado. Poderia, se quisesse, chegar ao final do ano com setenta livros lidos, por exemplo. No entanto, no meio do caminho tinha João Guimarães Rosa, com o seu "Grande Sertão: Veredas". Sem dúvida, uma grande clássico da leitura mundial. Mas um livro denso, complicado... Tive que, de fato, deixá-lo no meio do caminho, sem, no entanto, desistir dele.

E depois dessa leitura e de um ritmo "frenético" de leituras, tive uma baita ressaca literária. Não conseguia ler nada. Os livros me deixavam muito entediada. Tentei todas as possibilidades da minha estante e nada funcionou. Então, dei tempo ao tempo. Vi alguns vídeos no YouTube, li algumas resenhas, mas descansei minha mente.

E, depois de um pouco mais de um mês de "crise", consegui voltar ao meu ritmo normal de leituras. Ufa!!! E voltei com gosto! Já li um grande clássico do terror (O Exorcista) e estou iniciando minha saga pelas crônicas de Artur. <3

Creio que é bom passar por essas crises mas, melhor ainda, é sair delas. Faz a gente refletir um pouco sobre o que lemos e o ritmo que lemos. Para você, que está nessa situação chata, fique tranquilo. Descanse. Aproveite para fazer outras coisas que você gosta. Quando você menos esperar, ela vai embora. Um dia ela sempre vai. =)

Um beijo!
Até mais!

11/10/2015

"Vidas Secas", de Graciliano Ramos


Sinopse do livro aqui.

1. "Vidas Secas" é uma das obras mais conhecidas e a mais traduzida para outros idiomas de Graciliano Ramos. Publicada em 1938, ela faz parte da geração do modernismo no Brasil.

2. Em linhas gerais, a obra trata de uma família nordestina que está perambulando pelo sertão, buscando a sua sobrevivência. Essa família é composta por Fabiano, Sinha Vitória, o menino mais novo, o menino mais velho e a cadela Baleia. Eles chegam a uma casa "abandonada" e lá resolvem ficar, porém, logo depois, descobrem que essa casa pertence a uma terceira pessoa e, para que eles fiquem lá, terão que trabalhar para essa pessoa, que Fabiano chama apenas de "patrão".

3. Pois bem, a narrativa do livro se passa, quase toda, enquanto eles residem nessa fazenda e vamos acompanhar, no decorrer do enredo, o olhar interiorizado do escritor sobre as personagens, seus sonhos, seus conflitos e seus medos. Frise-se que o fato de cada personagem expressar o seu ponto de vista é uma característica importante nessa obra. A cada capítulo muda a perspectiva, de tal forma que as opiniões nunca são impostas pelo narrador, elas decorrem de cada personagem. O outro sempre está em perspectiva, nunca o eu.

4. O livro é composto por treze capítulos, sendo cada capítulo autônomo em relação ao outro, motivo pelo qual tal romance é classificado como "desmontável". Porém, apesar dessa autonomia, existe uma ordem cronológica nos acontecimentos, motivo pelo qual recomendo que o mesmo seja lido do início ao fim. Mas, claro, isso é uma opção do leitor.

5. Essa história poderia ser de Fabiano como de qualquer outro nordestino. E poderia ser no período do Estado Novo como de qualquer outra época. Apesar de atualmente a situação do Nordeste ter melhorado um pouco devido aos programas sociais de abastecimento de água, energia e de distribuição de renda, sabemos como ainda é difícil a situação das pessoas que ainda lidam com a seca e a pobreza iminente. Frise-se que até o final da década de noventa do século passado e início desse século, era constante a migração de nordestinos para as grandes cidades e grandes estados. Então, Graciliano Ramos, com grande sabedoria, não escreve apenas uma ficção, mas uma realidade, infelizmente abandonada até hoje pela classe política.

6. Um dos aspectos mais interessantes nessa obra literária e que sempre é comentada por quem quer que fale sobre ela é a privação da palavra. As personagens são analfabetas, não tiveram acesso à educação e, portanto, nunca tiveram oportunidade de aprender a palavra. Essa "ignorância" é passada dos pais para os filhos. Uma passagem interessante do livro é quando o menino mais velho quer saber o que significa "inferno". Ele achava a palavra tão bonita e não conseguia entender porque a mãe falava que era um lugar ruim: "Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com sinha Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinha Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo." (p. 59). A falta de conhecimento sobre a palavra também priva as personagens de manterem contato com outras pessoas e de expressarem os seus sentimentos. Eles têm conhecimento apenas do básico para a comunicação, o que limita o mundo em que vivem. "Como podiam os homens guardar tantas palavras? Era impossível, ninguém conservaria tão grande soma de conhecimento" (p. 82). O mundo em que viviam era tão pequeno e pobre, que só conheciam o seu Tomás que sabia ler, ou melhor, que gastava a vista lendo demais, mas não sabia mandar era muito cortês, o que era estranho para alguém que tinha tanto conhecimento. Mas, apesar de tanta cortesia, sabia que todos obedeciam ao senhor Tomás. Fabiano ás vezes o imitava falando palavras difíceis, no entanto, achava uma grande tolice, pois entendia que um homem como ele não tinha nascido para falar certo.


7. Fabiano e família vivem praticamente isolados na fazenda. Apenas em dois capítulos há a narração da ida deles para a cidade. No primeiro, Fabiano vai sozinho à cidade comprar alguns mantimentos para sinha Vitória. Lá acaba se esbarrando com um soldado amarelo e, no final das contas, acaba sendo preso por esse soldado. Em um segundo momento, a família vai para a festa de Natal da cidade. NessAs duas situações, percebemos claramente o quanto a privação da palavra é um obstáculo para a comunicação desses sujeitos com a sociedade. Quando Fabiano é preso ele simplesmente não sabe expressar o motivo pelo qual ele está preso e, entende, por fim, que ele está preso justamente por não saber se expressar. Na ida da família para a cidade, no Natal, ocorre a mesma coisa: a dificuldade na comunicação acaba por isolá-los da companhia das outras pessoas, uma vez que, se a linguagem é o mundo, eles não entendem o mundo.

8. Uma das personagens mais interessantes do livro é a cadelinha Baleia. Baleia é membro da família e personagem ativa no livro. Ela pensa, opina, sonha, delira e cria juízo de valor. Aliás, até nome ela tem, coisa que as crianças foram privadas... Isso é considerado na literatura como antropomorfização, que é a qualidade de dar características humanas à animais e coisas. A mim, Baleia me conquistou. Aliás, o capítulo de sua morte, que é de conhecimento público, é um dos mais tristes que li. A morte de Baleia não entristece apenas os leitores, mas também Fabiano, que traz o peso de ter matado a cadelinha pelo resto da história. Por outro lado, e ao revés do que ocorre com Baleia, o ser humano em "Vidas Secas" é descrito como um animal (zoomorfização): "Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, gradava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia" (p. 20).

9. O papel da mulher nessa obra também merece certo destaque. Apesar da pouca instrução, a opinião de sinha Vitória é sempre muito relevante para Fabiano. Ele a consulta sobre a educação dos menino, para que ela faça as contas do valor que ele deve receber do patrão, enfim, a relação entre os dois me parece ter um certo nível de igualdade, não identifiquei uma relação patriarcal, no sentido de só ele mandar.

10. "Vidas Secas" tem como pano de fundo a opressão que vivem os mais humildes e desprovidos de conhecimento da palavra. Após a sua prisão, Fabiano vive com a ideia na cabeça de se vingar do soldado amarelo. Seja quando está na cidade ou no seu reencontro com o soldado, tal pensamento sempre vem a sua mente. No entanto, ele prefere acomodar-se, pois, como ele mesmo pensa, governo é governo, ou seja, o soldado amarelo representa o Estado e este é o todo poderoso contra o qual Fabiano nada pode. Não obstante, Graciliano Ramos, comunista como era e inspirado pelas ideias de Marx, não poderia deixar de incluir nessa obra a relação de opressão do trabalhador. Essa relação opressora fica evidente quando Fabiano é obrigado a trabalhar para o patrão para poder ficar nas terras e na hora do pagamento, onde o patrão inventa juros exorbitantes, fazendo de Fabiano um quase devedor de seu empregador.

11. O início e o final do livro se apresentam com essa família se mudando, fugindo da seca. No entanto, a diferença é que após a seca chegar na fazenda onde estavam, eles estão com um fio de esperança e fazem planos para o futuro: querem ir atrás um lugar para morar na cidade, colocar as crianças na escola, onde terão uma profissão, e a vida será bem melhor. Percebemos o quão pequeno é o sonho dessas pessoas e até palpável para nós. Ora, o sonho da sinha Vitória é ter uma cama onde dormir! Isso ocorre porque essas pessoas não tem nada, nem o que vestir, vivem num estado de completa miséria. E o Governo, que poderia fazer tão pouco para que essas pessoas fossem minimamente felizes, não faz nada... Na minha opinião, o fato do início e fim do livro terminar com essa família fugindo da seca é muito simbólico e característico do realismo crítico de Graciliano Ramos, que é extremamente ácido. Porém, esse fio de esperança que aparece no final nos mostra que, apesar de tanta desgraça, nem tudo está perdido, a realidade pode mudar.

12. O título "Vidas Secas" não quer dizer que essas pessoas vivem apenas na seca, mas que suas vidas são secas também de direitos. A começar por elas sequer saberem que têm direitos. As personagens se colocam num estado de servidão e entendem que a vida é assim mesmo, que nasceram para apanhar, que não nasceram para aprender das letras e do mundo e que só lhes contenta ter um lugar para morar e comida para comer. Ou seja, muito pouco, sonham muito pequeno. E a gente se pergunta: mas que justiça é essa?

13. De tantos livros que eu li, não tem como não comprar este com "Vinhas da Ira", de Steinbeck. Aliás, este último foi publicado em 1939, ou seja, um ano depois da publicação da obra de Graciliano. As duas obras retratam injustiças sociais, onde as pessoas são retiradas de suas terras, migram para outra localidade, são analfabetas (mais uma vez, o problema da linguagem...), passam fome, lidam diretamente com a morte e ainda sofrem a opressão do Governo, que deveria ampará-las. Outro ponto em comum: os dois escritores foram perseguidos pelo Governo. A diferença é que a primeira se passa no Brasil e a segunda nos Estados Unidos. Mas, as realidades são as mesmas e o final dos dois livros retratam a mesma coisa: esperança.

14. Enfim, Graciliano Ramos foi e é um militante das causas sociais. Esse livro é leitura obrigatória. 


Um beijo e até mais! =*

08/09/2015

"Madame Bovary", de Gustave Flaubert

Sinopse do livro aqui.

1. “Emma Bovary c'est moi” (Emma Bovary sou eu).

2.  Madame Bovary é um clássico da literatura mundial. E isso fica mais evidente após o término da leitura. O livro é grandioso, no entanto, confesso que custei a pegar o ritmo da leitura e no início achava todo o enredo muito tedioso.

3. Antes mesmo de ler, sabia que se tratava de um caso de traição. Então, creio que isso não seja nenhum spoiler. Na realidade, o que achei mais interessante no livro não foi a traição em si, mas o desenrolar, a construção das personagens, os devaneios, as tolices e a hipocrisia de alguns. Emma é uma personagem sui generis na literatura. Uma mulher criada no campo, pequeno-burguesa e muito sonhadora, que imagina sua vida como nos romances literários. Seu sonho é encontrar um grande amor e viver tal romance intensamente. Por isso, durante a história, Emma parece lutar contra um mundo no qual ela não se sente completa. Daí porque ela procura em seus amantes essa intensa paixão, que são clichês da vida romântica. 

4. Ela conhece Charles Bovary quando este vai tratar uma fratura de seu pai. Charles era oficial de saúde na cidade de Tostes e, até então, casado com a senhora Heloise Dubuc. A impressão que temos é que ele não gostava tanto de sua esposa e, com a morte desta, acaba se afeiçoando por Emma e estes acabam se casando. Flaubert retrata este homem, a partir dos sentimentos de Emma, na seguinte frase:
"A conversa com Charles era sem relevo como uma calçada e as ideias de todo mundo nela desfilavam em seu traje comum, sem excitar emoções, riso, ou devaneio"
5. Desde o início do casamento, conseguimos perceber a felicidade de Charles e a infelicidade de Emma. E mesmo após a mudança de cidade - eles vão para Yonville e lá eles têm sua primeira e única filha, Berthe - tal situação não parece mudar muito. Aliás, a felicidade de Charles com o casamento e sua segurança em relação à esposa eram tanta, que ele não consegue perceber o sinal das traições de Emma.

6. O livro é começa sendo narrado em primeira pessoa por um sujeito indefinido que estudou com Charles na escola. Aos poucos, o narrador vai sumindo até sair de cena e dar vida própria às personagens. Aliás, apesar do livro chamar-se "Madame Bovary", o que nos faz entender ser esta a personagem principal, a sensação que tive é que ele conta a história de Charles do começo ao fim, e não da Emma.

7. O grande Henry James disse que Flaubert conseguiu uma proeza ao escrever personagens medíocres em "Madame Bovary". De fato, toda essa mediocridade é um clichê da sociedade francesa da época. Ora, ao analisarmos as personagens Emma, Charles, o farmacêutico Homais, o comerciante Lheureux, percebemos uma intensa crítica à sociedade de aparências e burguesa na França do Segundo Império.

8. Gustave Flauber  (1821-1880) prezava pela perfeição de duas obras. Tanto isso é verdade, que para escrever seus poucos livros (Madame Bovary, Educação Sentimental, Salammbo e o incompleto Bouvard e Pecuchet) ele passou anos e anos lutando com as palavras. Madame Bovary foi escrito em quatro anos e meio (1851-1856) e foi publicado em seis números da Revue de Paris, de outubro a dezembro de 1856.

9. No entanto, a publicação desse romance teve problemas com a justiça francesa e Flaubert teve que responder a um processo no qual obteve uma sentença positiva da justiça. Quando a história foi publicada em formato de livro, o sucesso foi imenso. A "cena do fiacre", onde não há nenhum diálogo, apenas um fiacre andando pelas ruas de Rouen, com Emma Bovary e o jovem Leon lá dentro, ganhou grande repercussão, por ser "escandalosa". Atualmente, Madame Bovary não causa mais escândalo e se consagrou como um dos maiores romances da literatura mundial, com o seu realismo moderno.

10. O livro não é um dos meus preferidos da vida, no entanto, confesso que ele é muito bom. Ele não se tornou um dos preferidos porque, como disse antes, custei a pegar o ritmo da leitura. A narrativa dos devaneios de Emma ou da paisagem de determinado local se tornaram um pouco cansativas. No entanto, tal "cansaço" é recompensado a posteriore, no final da segunda parte em diante. 

11. Então é isso, fica aqui a dica de um livro espetacular, uma leitura obrigatória, por ser um grande clássico da literatura mundial. 

Boa leitura!

16/08/2015

Diário de Leitura #3: Término de "Madame Bovary" e retomada da saga pelo sertão

Olá pessoas! ☺

Estou retomando meu projetinho de escrever um Diário de Leitura aqui no blog. Já escrevi outros dois, que vocês podem acompanhar no marcador "Diário de Leitura".

08 a 12 de agosto:

Bom, na semana retrasada fixei uma meta de finalizar "Madame Bovary", de Gustave Flauber e consegui finalizar o livro na última quarta-feira. Em breve, falarei melhor sobre o livro aqui no blog, mas sinceramente, achei fantástico, apesar do livro não ter entrado nos meus favoritos da vida. Isso porque achei a narrativa um pouco enfadonha em alguns momentos, principalmente na primeira parte do livro. No entanto, no final da segunda e terceira parte os acontecimentos ocorrem num ritmo um pouco (vejam bem, um pouco) mais acelerado. Não sei quem já leu, mas me deu uma pena do Charles Bovary...

13 de agosto:
Grande Sertão: Veredas: pgs. 40 a 50.

- Retomei "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa. Eu tento, tento, mas não tem jeito, não consigo ler vários livros ao mesmo tempo! Hahaha! De forma que estou lendo agora APENAS essa obra prima de Rosa.
- Gente, e essa relação de Riobaldo e Diadorim? Meio complexa, vocês não acham? Transita entre uma relação homoafetiva e uma grande amizade... Vamos acompanhar...
"Relembro Diadorim. Minha mulher que não me ouça. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice".
- Identifiquei-me um pouco quando Riobaldo fala que não teve pai. E achei bem mais interessante sua narrativa sobre os homens que mudam de lugar muito facilmente. Por conta das secas, muitos sertanejos mudavam de lugar à procura de água e trabalho. E pelo caminho, constituíam muitas famílias. Isso era uma realidade mesmo do grande sertão. Guimarães Rosa era um sábio social.
- Nesse trecho percebi a presença de Medeiros Vaz e sua tropa de jagunços, os "medeiro-vazes" (p. 45). Também conhecemos um pouquinho do Joca Ramiro.
- Ida para o sul da Bahia... Triste travessia.
"Viver é muito perigoso"

14 de agosto:
Grande Sertão: Veredas: pgs. 51 a 59.

Travessia pelo sertão da Bahia e retorno.
"Fui fogo, depois de ser cinza" (p. 56)
15 de agosto:
Grande Sertão: Veredas: pgs. 60 a 100.

- Foi o dia em que li mais. A leitura está sendo mais fluída, acho que a gente começa a se acostumar com o linguagem do sertanejo. Tenho lido em voz alta e isso facilita demais a compreensão.
- Para os jagunços, a morte é algo corriqueiro, que faz parte da vida. Dessa forma, percebemos na narrativa que não há grande comoção quando alguém morre, uma vez que já é algo do seu cotidiano. Uma coisa tão certa quanto o viver.
"O real não está na saída nem na chegada: ele dispõe pra gente é no meio da travessia" (p. 64)
"Qual o caminho certo da gente? Nem para a frente nem pra trás: só para cima".

- Não quero fazer spoiler, mas alguém inesperado aparece e, enfim, muda o jogo para aquele grupo de jagunços, no qual Riobaldo faz parte.

"Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que o outro cozinhou quente demais" (p. 94)


26/07/2015

"Anjo da Escuridão", de Sidney Sheldon e Tilly Bagshawe

Editora: Record
Páginas: 398
Tradução: Michele Gerhardt Macculloch
Sinopse do livro aqui.

1. Esse foi o primeiro livro lido por mim de Sidney Sheldon. Quer dizer, não podemos dizer que o livro foi escrito totalmente por ele. Esse é mais um dos livros não acabados de Sidney. E, assim como ocorreu com "A Senhora do Jogo", "Depois da Escuridão" e "Sombras de um Verão", a família Sheldon convidou uma discípula para finalizar as obras, no caso, a Tilly Bagshawe. Dessa forma, não poderei tecer comentários sobre se o livro seguiu a linha de Sidney e nem compará-lo com suas outras obras.

2. No entanto, li como uma leitora que adora livros de suspense e, sinceramente, não gostei. E acho que essa minha opinião é um pouco isolada, pois li vários comentários no Skoob de pessoas que adoraram o livro. 

3. A história inicia com um assassinato cruel em Los Angeles de um milionário morto brutalmente e sua esposa é espancada, estuprada e amarrada ao corpo do marido. Acompanha o caso o detetive Danny McGuire, no entanto, toda a investigação é considerada infrutífera e o caso arquivado. Além disso, a esposa desaparece e doa sua herança para uma instituição que cuida de crianças.

4. Após alguns anos, Danny McGuire passa a trabalhar na Interpol, na França, e é procurado por Matt Daley, que alega ser o filho da vítima do assassinato cruel em Los Angeles. Daley afirma está fazendo um documentário sobre o caso e apresenta outros casos que contém certa semelhança com o primeiro assassinato, reavivando em Danny a perspectiva de acompanhar a série de assassinatos.

5. Bom, o livro é do gênero suspense e eu adoro livros assim. No entanto, logo no início do livro fui ficando meio entediada com a história e me arrastando em seu enredo. Acho que a parte que mais me empolgou foi o julgamento, depois que eles descobrem quem realmente estava por trás de todos os casos, no entanto, até com essa parte achei um pouco "piegas".

6. Li um comentário aqui falando que a Tilly Bagshawe não chega nem aos pés dos casos do próprio Sidney Sheldon. Como disse antes, sobre isso infelizmente não poderei tecer comentários. Mas, o fato é que o livro não me empolgou muito. Até o fato de Matt Daley ter ficado completamente apaixonado por uma das vítimas foi extremamente exagerado, na minha opinião. Ainda sim, desde o início fica na cara quem são os verdadeiros culpados pelo assassinato em série, o que, na minha opinião, é muito ruim para um livro de suspense. Enfim, quem quiser ler, acho que vale a pena cada pessoa tirar suas conclusões.

7. Preciso ler outros livros de Sidney, escritos por ele mesmo.

Boa leitura! ;*

20/07/2015

Fériasssss!!

A blogueira que vos escreve estará temporariamente fora do ar, devido às suas férias!

Mas, daqui a alguns dias nos veremos novamente.

Um grande beijo!

10/07/2015

"O Sol é Para Todos", de Harper Lee

Editora: Jose Olympio
Páginas: 364
Tradução: Beatriz Horta
Veja a sinopse aqui.

"Os advogados, suponho, um dia foram crianças" - Charles Lamb

1. Que livro maravilhoso! Li "O Sol é Para Todos" em uma leitura coletiva proposta pela Mell Ferraz, do canal Literature-se, e foi, sem dúvida, uma das melhores experiências literárias que tive este ano. O livro entrou fácil na lista dos melhores que já li na vida.

2. Vamos começar falando sobre a autora, Harper Lee. Nascida em 1926, no Alabama (sul dos Estados Unidos), um de seus melhores amigos de infância e da vida foi o Truman Capote. "O Sol é Para Todos" é o único livro que ela publicou até então, mas foi mais bem-sucedido que toda a obra de Capote. Isso nos faz refletir: na arte, muitas vezes, a qualidade supera a quantidade.

3. Recentemente, Harper Lee, que vive em uma casa de repouso, anunciou a continuação do livro "O Sol é Para Todos", com a mesma protagonista, agora 20 anos mais velha. Intitulado "Go Set a Watchman", o novo livro estreia em 14 de julho, e a tradução literal seria "Arrume um Vigia". Curiosamente, esse romance foi escrito antes de "O Sol é Para Todos" e finalizado em 1950, mas os editores da época sugeriram que ela reescrevesse a história na perspectiva de Scout quando criança. Devido à publicação desta sequência, a editora José Olympio (grupo Editorial Record) decidiu relançar "O Sol é Para Todos", pois já faziam muitos anos que o livro não estava mais disponível.

4. O título original "To Kill a Mockingbird", tem tradução literal de "Não Mate a Cotovia". Na verdade, mockingbird é um pássaro que não existe no Brasil, sendo nativo dos Estados Unidos (inclusive, o rapper Eminem tem uma música muito linda cujo título é o nome desse pássaro). Este livro é um clássico nos Estados Unidos e leitura obrigatória em muitas escolas, sendo comparado, talvez, à importância de Machado de Assis no Brasil. Além disso, o livro recebeu o Prêmio Pulitzer.

5. Publicado em 1960, a história se passa na década de 1930, em Maycomb, uma pequena cidade no Alabama (abaixo, consta o mapa que encontrei da cidade na história, muito legal!). A segregação racial entre brancos e negros era intensa, especialmente no sul do país, e essa é uma das principais temáticas do livro. Além do racismo, a obra aborda temas como amadurecimento, justiça, coragem e esperança.


6. A história é narrada por Scout (Jean Louise) e se passa quando ela tinha entre 6 e 8 anos. Ela vive com seu irmão mais velho, Jem, seu pai, Atticus, e Calpúrnia, uma mulher negra que trabalha como cozinheira e babá. Atticus é um advogado respeitado e um homem muito ocupado, o que faz de Calpúrnia uma figura essencial na criação dos dois irmãos, algo raro naquela época devido à condição dos negros.

7. O livro é dividido em duas partes. Na primeira, Scout e Jem conhecem Dill (Charles Backer Harris), um menino que passa os verões na casa da tia e se torna grande amigo deles. A aventura das crianças gira em torno da curiosidade por Arthur (Boo) Radley, um vizinho recluso. Esses momentos de travessuras infantis evocaram a nostalgia da infância, algo que, em algum ponto, todo leitor pode se identificar.

8. Na segunda parte, a história toma um tom mais sério com o julgamento de Tom Robinson, um homem negro acusado de estuprar uma jovem branca de família pobre. Atticus é designado para defendê-lo, o que faz com que sua família se torne alvo de preconceitos. Atticus é um modelo de humanidade e coragem, lutando pela justiça mesmo diante de uma sociedade racista.
"O caso de Tom Robinson é algo que concerne ao âmago da consciência humana. Scout, eu não poderia ir à igreja e louvar à Deus se não tentasse ajudar esse homem".
9. Fica claro que Tom é vítima do racismo, assim como Atticus e sua família sofrem as consequências de defenderem um homem negro. Boo Radley também é uma vítima dessa sociedade hipócrita, que o leva a se isolar. Ambos, Tom e Boo, são os "mockingbird" da história, figuras inocentes massacradas pelos preconceitos da sociedade. As metáforas e figuras de linguagem ao longo do livro enriquecem a narrativa, trazendo profundidade às críticas sociais que a obra apresenta.
Comparou a morte de Tom à matança cruel de pássaros canoros pelos caçadores e pelos meninos.
10. Há quem diga que "O Sol é Para Todos" seja uma obra autobiográfica de Harper Lee, já que seu pai seu pai também era advogado e Dill seria inspirado em Truman Capote, seu amigo de infância. A escritora voltou a ganhar destaque no Brasil na última década, com o filme "Capote" (2005) e agora com a expectativa do lançamento de seu novo livro.

11. Em resumo, "O Sol é Para Todos" é uma leitura imprescindível, com personagens que nos ensinam valiosas lições. Atticus e a Scout, em especial, são inesquecíveis! Estou ansiosa pelo novo livro!

Boa leitura! ;*

P.S.: O livro foi adaptado para o cinema em uma versão em preto e branco que ganhou o Oscar. mal posso esperar para assistir!


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